BRUNO D’AMICIS - TATRAS OCIDENTAIS, ESLOVÁQUIA II
October 30th, 2009 Posted in Eastern Europe, UncategorizedOther Languages:
Para as pessoas que vivem nas terras baixas da Eslováquia, só existem duas estações do ano nas montanhas Tatra: “ o Inverno e a me**a do Inverno!”, tal como diz um ditado local. Nada podia ser mais verdade, já passou uma semana desde que estou a explorar a natureza do vale de Ticha e a Primavera parece a meses de distância.
Quase todos os dias, sopra um vento frio e forte tornando impossível caminhar nas encostas da montanha ou apenas tirar uma fotografia. Á noite, as temperaturas descem abaixo de zero e a neve derrete apenas onde o sol chega. Assim, existe um atraso no crescimento de nova erva, e por isso os animais que pastam tal como os ursos e veados, não se aventuram ainda nesta zona da floresta. As montanhas ainda possuem um aspecto azul-acastanhado de Inverno e apenas as Camurças e Petinhas podem ser vistas acima da linha das árvores. Mas Ticha é muito mais que apenas prados alpinos e ursos.
Imaginem um lugar onde pode nevar ou chover a qualquer altura; onde avalanches e quedas de pedras e relâmpagos podem ser uma ameaça a qualquer momento. Encostas com uma cobertura de pinheiros-anões siberianos tão densa que não se consegue atravessar. Vales onde podemos caminhar o dia inteiro e não encontrar ninguém. E milhares de hectares de uma velha e bela floresta: milhões de Abetos, Pinus cembra, Freixos, Lariços e Cedros. Florestas onde a madeira morta dá lugar a novas gerações de plantas e animais; onde o vento e o escaravelho-do-pinheiro destroem a frágil floresta de monocultura abrindo assim espaço à biodiversidade. E mais uma vez, enormes cascatas, lagos alpinos, canhões profundos e gargantas secretas. Um lugar para ursos, lobos, linces, camurças, tetrazes e águias. A natureza no seu melhor. Mesmo no coração da Europa.
E tal como muito lugares na terra, também Ticha está ameaçada. Apesar de ser um reserva protegida dentro do Parque Nacional de Tatra e parte da Rede Natura 2000, o sistema de vales ligado a Ticha está constantemente sob ameaça. Desde a dramática tempestade que atingiu o norte da Eslováquia em 2004, destruindo milhares de quilómetros quadrados de florestas, tem havido várias tentativas dos serviços florestais eslovacos para recolher a madeira caída até mesmo nestes vales. Com a desculpa de prevenir incêndios e a expansão do escaravelho-do-pinheiro, apesar de tudo têm sido feitos grandes cortes de floresta praticamente em todo o lado. Acesos conflitos têm surgido entre os interesses dos madeireiros, cientistas e conservacionistas, tendo em ultimo caso levado a um efeito benéfico no processo evolutivo da floresta. Em cima disto, veados, ursos e lobos são frequentemente abatidos quando se aventuram nas terras baixas, à procura de comida durante o Outono e Inverno.
Durante os últimos anos passei muitos dias na sombra destas montanhas mas ainda assim descubro sempre novas coisas e lugares. É difícil condensar todas estas experiencias em apenas duas semanas de missão fotográfica e quem sabe o resta ainda descobrir! Acredito firmemente na importância de documentar o mais que posso e poder mostrar á maior audiência possível tanto a beleza como a fragilidade deste belo lugar.
É por essa razão que eu também queria fotografar as Tatras do ar, isto para dar uma outra visão e uma diferente perspectiva desta natureza complexa. Por outro lado, estava consciente da perturbação que uma avioneta destas poderia ter na vida selvagem e assim assegurei-me de que o voo não seria nem longo nem de baixa altitude. O piloto estava preparado, escolhi um dia ao fim da tarde, logo após uma tempestade. Foi uma decisão arriscada, porque as nuvens poderiam bloquear a luz e tornar as imagens pouco interessantes. Mas, como muitas vezes acontece com o mau tempo, fui recompensado com uns breves minutos de boa luz e uma boa cor nas montanhas. Voar por entre as nuvens com um pequeno Cessna e olhar para estas montanhas e espreitar os escarpados vales, foi um momento verdadeiramente comovente na minha carreira de fotógrafo da natureza.
Bruno D’Amicis / Wild Wonders of Europe
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